A lebre e a tartaruga – uma fábula
atemporal
Era
uma vez um texto de André Lemos que analisava o atual cenário social envolto na
tecnologia ubíqua e na computação pervasiva (nomes diferentes para o sonho
banhado à ficção científica daqueles filmes que eu via quando menina, que
mostravam o mundo envolto numa informática onipresente, fazendo o homem
interagir com o computador sem nem mesmo se dar conta). Então... era uma vez
esse texto que provocou uma reação inimaginável na leitora. A cada linha, a
cada afirmação, exemplos do mundo real iam passando, em segundo plano, em sua
mente: os computadores de bordo dos carros cada vez mais tecnológicos; seu
irmão conversando com a “SIRI” – a mulher que vive dentro do celular e que sabe
de tudo, desde a previsão do tempo até quantas calorias há em determinado prato
e que o ajuda até mesmo a acordar no horário certo, mas que não gosta de falar
sobre ela mesma e é taxativa ao descartar qualquer possibilidade de conversa “pessoal”;
os outdoors em versões cada vez mais inovadoras, com luzes e telas mudando de
instante em instante; os caixas eletrônicos com biometria; as geladeiras
inteligentes; os fogões tecnológicos que não usam chama; as mais variadas
funções dos celulares, que fazem dispensar os computadores... Isso mesmo: são
as máquinas e os objetos computacionais imersos no quotidiano de forma
onipresente, como afirma Lemos.
E,
de repente, me peguei pensando na fábula “A lebre e a tartaruga”. Que fábula atemporal, meu Deus! Mas lembrei fazendo
uma analogia cruel e fatídica: a lebre-sociedade e a tartaruga-escola. A sociedade,
uma lebre veloz, ágil e produzida, com um smartphone atualíssimo nas ‘mãos’ e
um sorriso vitorioso e desdenhoso no rosto, olhando para a escola, uma
tartaruga enrugada, de casco pesado e olhos cansados e amedrontados, diante de
um computador enorme, amarelado e obsoleto. Ambas têm o mesmo destino, mas vão
em passos diferentes.
Estamos
na era da conexão. Na era da mobilidade. O celular virou um teletudo. E aí vem a questão social da “inclusão
digital”. O que seria realmente incluir? A quem compete incluir? Como fazer
essa inclusão no nosso dia-a-dia, lá na sala de aula, incluindo aqueles que não
têm celular, nem sinal de internet em casa, nem computador?
Sim,
não se pode negar que a sociedade vive a cultura da mobilidade contemporânea,
em que limites de tempo e espaço já são relativizados há tempos, e que as
definições de público e privado estão sendo modificadas, reajeitadas. Mas a
escola ainda não. Ainda é analógica. Alguns professores são muito favoráveis às
práticas analógicas. E a dicotomia se acentua. Não podemos negar nossa tarefa
de dar um empurrãozinho na tartaruga.
Cá
estamos nós, atingidos pelo texto de André Lemos e pelas conjecturas que ele
provoca, e quando olhamos pra frente, percebemos um caminho turvo, sombrio e
teremos que levar a luz certa, para que resista à chuva, ao vento, aos altos e
baixos.
Inquietações.
Tentativas. Uma ação de cada vez. Será assim que escreveremos uma outra versão
da fábula.