terça-feira, 31 de janeiro de 2017





A lebre e a tartaruga – uma fábula atemporal

Era uma vez um texto de André Lemos que analisava o atual cenário social envolto na tecnologia ubíqua e na computação pervasiva (nomes diferentes para o sonho banhado à ficção científica daqueles filmes que eu via quando menina, que mostravam o mundo envolto numa informática onipresente, fazendo o homem interagir com o computador sem nem mesmo se dar conta). Então... era uma vez esse texto que provocou uma reação inimaginável na leitora. A cada linha, a cada afirmação, exemplos do mundo real iam passando, em segundo plano, em sua mente: os computadores de bordo dos carros cada vez mais tecnológicos; seu irmão conversando com a “SIRI” – a mulher que vive dentro do celular e que sabe de tudo, desde a previsão do tempo até quantas calorias há em determinado prato e que o ajuda até mesmo a acordar no horário certo, mas que não gosta de falar sobre ela mesma e é taxativa ao descartar qualquer possibilidade de conversa “pessoal”; os outdoors em versões cada vez mais inovadoras, com luzes e telas mudando de instante em instante; os caixas eletrônicos com biometria; as geladeiras inteligentes; os fogões tecnológicos que não usam chama; as mais variadas funções dos celulares, que fazem dispensar os computadores... Isso mesmo: são as máquinas e os objetos computacionais imersos no quotidiano de forma onipresente, como afirma Lemos.
E, de repente, me peguei pensando na fábula “A lebre e a tartaruga”. Que fábula atemporal, meu Deus! Mas lembrei fazendo uma analogia cruel e fatídica: a lebre-sociedade e a tartaruga-escola. A sociedade, uma lebre veloz, ágil e produzida, com um smartphone atualíssimo nas ‘mãos’ e um sorriso vitorioso e desdenhoso no rosto, olhando para a escola, uma tartaruga enrugada, de casco pesado e olhos cansados e amedrontados, diante de um computador enorme, amarelado e obsoleto. Ambas têm o mesmo destino, mas vão em passos diferentes.
Estamos na era da conexão. Na era da mobilidade. O celular virou um teletudo. E aí vem a questão social da “inclusão digital”. O que seria realmente incluir? A quem compete incluir? Como fazer essa inclusão no nosso dia-a-dia, lá na sala de aula, incluindo aqueles que não têm celular, nem sinal de internet em casa, nem computador?
Sim, não se pode negar que a sociedade vive a cultura da mobilidade contemporânea, em que limites de tempo e espaço já são relativizados há tempos, e que as definições de público e privado estão sendo modificadas, reajeitadas. Mas a escola ainda não. Ainda é analógica. Alguns professores são muito favoráveis às práticas analógicas. E a dicotomia se acentua. Não podemos negar nossa tarefa de dar um empurrãozinho na tartaruga.
Cá estamos nós, atingidos pelo texto de André Lemos e pelas conjecturas que ele provoca, e quando olhamos pra frente, percebemos um caminho turvo, sombrio e teremos que levar a luz certa, para que resista à chuva, ao vento, aos altos e baixos.
Inquietações. Tentativas. Uma ação de cada vez. Será assim que escreveremos uma outra versão da fábula.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017


UM MUNDO DE POLEGARZINHOS!


Dizem por aí que a leitura te leva a mundos nunca antes imaginados... Outros dizem que a leitura te dá asas. É bem o que sentimos quando nos deparamos com as leituras escolhidas pelos nossos professores do Mestrado Profissional em Educação, da UFBA. E falo sempre no plural porque percebo, ao debater com meus colegas de curso, o mesmo encantamento, a mesma inquietude, a mesma desconstrução organizada para uma reconstrução direcionada.
O exemplo mais recente aconteceu com a leitura e debate de “Polegarzinha”, de Michel Serres.
Um confronto de gerações. O analógico e o digital. A geração ubíqua versus a geração limitada. De cara já se tem uma ideia clara sobre a intenção textual: sondar o terreno, trazer à tona a necessidade de se conhecer nosso aluno, aquele adolescente digital, multitarefa, inquieto, imediatista, criativo, dono de variados neologismos típicos de quem vive em rede.
A escola, a educação, o professor precisam se inserir na rede. Pensar em rede, agir em rede. É necessário nos “acomodarmos” a esse novo modus operandi. Urge que saibamos dialogar, entender e nos fazer entender, entremeando o conhecimento didático, acadêmico, às habilidades de utilizá-los no meio social, como suporte para a vida digital que se leva. Porque, vemos, a sociedade é ubíqua, a informação se dá em rede. A escola não. Ainda tem ranços que atravancam a engrenagem.
E é aí onde entramos para atuar, para mediar, para relembrar o quanto é importante que exercitemos a memória (sim, no mundo digital temos suportes e ajudas que nos fazem usar cada vez menos a memória, exercitar cada vez menos nosso cérebro); a humanidade (as relações se tornam frias e tendemos a nos ‘acostumar’, a ‘naturalizar’ atos, acontecimentos, crimes, corrupção, o que nos faz esquecer nossa humanidade quando perdemos a capacidade de sermos empáticos); as relações afetivas (tendemos a esconder sentimentos nessa realidade de tecnologia informatizada permeada de distâncias globalizadas, de tempo real, de máscaras invisíveis); o legado analógico – porque nós somos analógicos (Bonilla, 2017).
 Inegável que é uma grande responsabilidade. Mas duvido muito que não tentemos fazer a diferença depois de termos sido atingidos por esse texto.
 
OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS E A EDUCAÇÃO



A leitura do texto “Fases do desenvolvimento tecnológico e suas implicações nas formas de ser, conhecer, comunicar e produzir em sociedade”, de Alex Primo, proporciona ao leitor uma reflexão profunda e saborosa sobre as diversas etapas de desenvolvimento tecnológico vividas no cenário educacional. É possível dizer que vivi muitas facetas de avanços tecnológicos tanto em minha vida de estudante, como em minha vida como profissional.
Com o avançar da leitura, fui percebendo que tais avanços são históricos, o que me fez lembrar do ábaco nas séries iniciais do meu Ensino Fundamental, então denominado Programa Alfa I e II (do governo do Estado da Bahia), em meados da década de 80, quando aqueles “aparelhos” tão tecnológicos chegaram para incrementar as aulas de matemática. Foi uma emoção coletiva descobrir como o apetrecho colorido funcionava e o quanto ajudava a fazer as contas! A professora tirou o máximo proveito de todo o kit, que contava com vários outros artifícios preparados para impulsionar a aprendizagem através do encanto, da motivação, da “tecnologia”.
Muitas vezes, ela deixava a turma livre, explorando, supondo, experimentando... O que me fez traçar um paralelo com as ideias de Freire, quando se refere sabiamente ao “aprender a fazer, fazendo”, como também à liberdade de ação na prática educacional dentro dos muros escolares.
Assim como Primo citou as etapas históricas dos avanços tecnológico rememorando à história do homem e das políticas educacionais, assim também pude traçar as minhas memórias e analisar as etapas que vivi, até chegar à contemporaneidade, com essa profusão de apetrechos e de possibilidades que o mundo digital nos oferece. Aqui, nos dá suporte o texto de Silveira, "Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder", que indica mais precisamente como a tecnologia da informação vem transformando o processo educacional, mesmo que vá timidamente tomando espaço na escola, não tanto por culpa da falta de acesso ou da "inclusão" digital de nosso aluno, mas também pela dificuldade de o professor (analógico, moldado nos conformes clássicos) se adequar ao mundo digital.
Mas, do jeito que descobrimos e dominamos os apetrechos de épocas passadas – não sem medo de fracassar, vale ressaltar – também seremos capazes de descobrir, adequar e utilizar os apetrechos desta época, agora como educadores conscientes do quão importante é “modificar” para melhor nossa conjuntura educacional, nosso processo ensino-aprendizagem tão digital e tão ubíquo. Tarefa árdua, mas temos uma equipe de profissionais “porretas” a nos ‘armar’ de maneira chacoalhante e responsável, modificando-nos e levando-nos a refletir sobre as possibilidades que temos diante de nós. A sorte está lançada!